Socialização na infância: as primeiras amizades (0-5 anos)

Há uma cena que se repete em todos os parques: duas crianças de dois anos, lado a lado na caixa de areia, cada uma na sua brincadeira, sem trocar uma palavra. Os pais observam e pensam que alguma coisa não está a resultar. Não é verdade — aquilo é exatamente o que se espera daquela idade, e é uma etapa necessária para o que vem depois.

Como é que uma criança aprende a estar com os outros?

A socialização constrói-se por etapas e começa muito antes de haver amigos. Nasce na relação com quem cuida: um bebé cujo choro tem resposta aprende que comunicar funciona, e é essa experiência que serve de base a todas as relações seguintes. Só depois vem o interesse pelos pares, o brincar lado a lado e, por volta dos 3-4 anos, a cooperação a sério.

Vale a pena reter a ordem, porque muda a forma de olhar. A primeira competência social de um bebé é a troca com o adulto: sorrir e receber sorriso, emitir um som e ouvir resposta, apontar e ver alguém seguir o dedo. Cada uma destas trocas ensina o essencial — que existe outra pessoa, que ela responde, e que vale a pena comunicar.

Situações banais são as melhores oportunidades para isto. O banho, a muda de fralda e as refeições são momentos de toque, contacto visual e conversa em que a criança tem o adulto inteiramente disponível. Não é preciso construir ocasiões sociais especiais no primeiro ano — é preciso aproveitar as que já existem várias vezes por dia.

Regra de ouro: o objetivo não é uma criança popular, é uma criança à vontade. Um amigo chega, e algumas crianças precisam de bastante menos companhia do que os adultos presumem.

As fases do brincar com os outros

FaseIdade típicaComo se vêO que fazer
Brincar com o adulto0–12 mesesTroca de sorrisos, cu-cu, imitação de sonsResponder, esperar, repetir
Brincar sozinho12–24 mesesAbsorvida no seu objeto, ignora os outrosNão interromper; é concentração
Observar18–30 mesesOlha os outros a brincar sem entrarDeixar observar o tempo que precisar
Jogo paralelo2–3 anosLado a lado, brincadeiras separadasNormal e necessário; não forçar interação
Jogo associativo3–4 anosTrocam objetos e comentários, sem objetivo comumDar palavras, sugerir trocas
Jogo cooperativo4–5 anosPapéis, regras, objetivo partilhadoApoiar a negociação, não arbitrar tudo

O erro mais comum é esperar cooperação aos dois anos. O jogo paralelo não é um fracasso social — é a fase em que a criança aprende a tolerar a presença do outro e a copiar o que ele faz, que é a porta de entrada para tudo o resto.

Partilhar: o que é realista em cada idade

Partilhar é das exigências mais desajustadas que se fazem a crianças pequenas, porque requer três coisas que ainda não estão prontas: perceber que o outro quer algo, tolerar não ter o objeto agora, e confiar que o vai reaver.

O que funciona, na prática:

Uma nota que poupa muitos conflitos: algumas coisas não têm de ser partilhadas. O objeto de conforto, o brinquedo preferido, o que trouxe de casa. Dizer isso em voz alta — “este é dele e não se empresta, os outros são para todos” — resolve mais depressa do que insistir na partilha universal.

Conflitos: quando entrar e como

O instinto é separar imediatamente. Mas o conflito entre crianças é onde se aprende a negociar, e um adulto que resolve tudo retira essa aprendizagem.

Entre sempre e de imediato se houver agressão física, se a diferença de tamanho ou idade for grande, ou se uma criança estiver em angústia real.

Espere alguns segundos nas restantes situações. Muitos conflitos resolvem-se sozinhos, e frequentemente melhor do que resolveria o adulto.

Quando entrar, o mais eficaz é:

  1. Descrever o que vê, sem culpar: “vocês os dois querem o mesmo camião”.
  2. Dar palavras a ambos: “ele quer brincar mais um bocado. E tu queres agora.”
  3. Não investigar quem começou. Com crianças pequenas é quase sempre impossível e não muda o desfecho.
  4. Propor uma saída simples e sustentá-la: alternância, temporizador, ou retirar o objeto se a coisa não acalmar.
  5. Nomear a regra que não se negoceia: “não deixo que batas”.

Sobre limites e agressividade, veja impor limites com amor e como lidar com birras.

A criança que fica de fora

Algumas crianças observam durante muito tempo antes de entrar. Isto costuma ser temperamento, não dificuldade, e o pior que se pode fazer é empurrar.

O que ajuda:

Como criar oportunidades sem forçar

Não é preciso uma agenda social. O que resulta:

Quando merece atenção

A maior parte das diferenças de sociabilidade é temperamento. Vale a pena falar com o médico ou enfermeiro de família nas consultas de vigilância quando há:

Isolado, nenhum destes indica alguma coisa. Em conjunto e mantidos, justificam uma conversa — e o Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil existe para acompanhar exatamente isto.

O que fica

Conviver com crianças pequenas tem uma qualidade que se perde depois: a lógica delas é inteira. A nódoa na camisola é culpa da colher, que não fez bem o caminho até à boca; o sol do desenho é azul porque aquele sol tinha de ser assim. Um adulto que leva estas explicações a sério está a fazer trabalho social real — está a mostrar que o pensamento dela vale a pena ser ouvido, que é a base para ela ouvir os outros.

Para propostas que funcionam bem a dois ou em grupo pequeno, organizadas por idade, os guias abaixo dão estrutura às tardes em que há visitas — que é, quase sempre, quando a socialização acontece a sério.

Perguntas frequentes

Com que idade as crianças começam a brincar umas com as outras?

O brincar verdadeiramente cooperativo — com papéis e objetivo comum — aparece por volta dos 3-4 anos. Antes disso passa-se por fases: brincar sozinho, observar os outros, e brincar lado a lado sem interagir muito, que é o chamado jogo paralelo e domina entre os 2 e os 3 anos. Todas são etapas necessárias, não falhas.

O meu filho de 2 anos não partilha nada. É egoísta?

Não. Partilhar exige compreender que o outro tem desejos próprios e tolerar não ter o objeto agora — duas capacidades que só amadurecem mais tarde. Aos 2 anos, o que funciona é a alternância com apoio do adulto e tempo marcado, não a exigência de partilhar espontaneamente.

O meu filho prefere brincar sozinho. Devo preocupar-me?

Brincar sozinho é saudável e algumas crianças precisam mesmo de mais tempo a sós — é temperamento, não problema. O que merece atenção é diferente: não mostrar interesse nenhum pelos outros, não procurar o adulto para partilhar coisas, ou não usar gestos e olhar para comunicar.

Como ajudo uma criança tímida em grupo?

Dê-lhe tempo e um posto de observação. Chegar cedo a um espaço, antes de estar cheio, ajuda muito. Evite empurrar ("vai lá brincar") e evite rotular à frente dela. Grupos pequenos funcionam melhor do que grandes, e um só amigo chega perfeitamente.

Devo intervir quando há conflito entre crianças pequenas?

Intervenha sempre que houver agressão física, e nas restantes situações dê alguns segundos antes de entrar. Muitos conflitos resolvem-se sozinhos e é aí que se aprende. Quando entrar, descreva o que vê e dê palavras a ambos em vez de julgar quem começou.

Fontes: