Jogos de memória e observação para crianças (2-6 anos)

Esconder um brinquedo debaixo de uma almofada e ver uma criança de dois anos ir buscá-lo parece pouca coisa. Não é. Para o encontrar, ela teve de manter na cabeça a imagem de um objeto que já não vê, lembrar-se de onde o viu desaparecer e agir com base nessa memória. É memória de trabalho em estado puro — e é uma das competências que melhor prevê como uma criança vai aprender na escola.

Os jogos de memória para crianças não precisam de material comprado. Precisam de um adulto disponível, cinco minutos e um nível de dificuldade bem escolhido. Aqui ficam os que funcionam dos 2 aos 6 anos, com adaptações por idade.

O que treinam realmente estes jogos?

Jogos de memória e observação treinam sobretudo memória de trabalho — a capacidade de manter informação ativa na mente enquanto se faz outra coisa — e atenção seletiva, que é conseguir ignorar o que não interessa. Ambas fazem parte das funções executivas, o conjunto de competências mais associado ao sucesso na aprendizagem escolar. Treinam ainda vocabulário, discriminação visual e tolerância ao erro.

Vale distinguir dois processos que se confundem. Memória de reconhecimento é ver algo e saber que já se viu antes — é fácil e desenvolve-se cedo. Memória de evocação é recuperar da cabeça algo que não está à vista — é bastante mais difícil e é o que os jogos de pares virados para baixo exigem. É por isso que uma criança de três anos reconhece imediatamente a carta certa quando a vê, mas falha a lembrar-se de onde estava.

A atenção seletiva merece nota à parte. Num jogo de “o que mudou?”, a criança tem de comparar duas versões de uma cena e ignorar tudo o que se manteve igual. Filtrar informação irrelevante é uma competência exigente e treinável, e está diretamente ligada à concentração e ao foco que a escola vai pedir mais tarde.

Os jogos, por idade

JogoIdadeComo se jogaO que treina
Esconder à vista18-24 mesesEsconde-se um objeto deixando uma parte visívelPermanência do objeto, procura orientada
Esconde-esconde de objeto2-3 anosA criança tapa os olhos, o adulto esconde, ela procuraMemória de curto prazo, busca sistemática
Que mão?2-4 anosObjeto pequeno numa das mãos fechadas, a criança adivinhaAtenção, seguimento visual
O que mudou?3-5 anosCinco objetos numa bandeja, retira-se um às escondidasMemória visual, comparação, vocabulário
Pares virados para baixo3-6 anosCartas ou tampas em pares, virar duas de cada vezMemória de evocação, memória espacial
Fui ao mercado e comprei…4-6 anosCada jogador repete a lista e acrescenta um itemMemória auditiva sequencial, linguagem
Dia de uma cor2-5 anosEscolhe-se uma cor e procuram-se objetos dessa cor todo o diaAtenção seletiva, categorização

O último merece explicação porque é o mais subestimado da lista. Escolhem-se de manhã uma cor — hoje é dia amarelo — e, ao longo do dia, sempre que aparece algo amarelo, alguém aponta e nomeia. Não ocupa tempo dedicado nenhum e treina a criança a manter um critério de procura ativo durante horas. À medida que ela classifica objetos por características, a cor vai deixando de ser um detalhe e passa a ser um critério — que é um passo importante em aprender as cores e em pensamento categorial.

Esconder e procurar: o jogo que cresce com a criança

O esconde-esconde de objeto é, provavelmente, o jogo mais versátil que existe nesta faixa etária. Não precisa de nada além de um brinquedo favorito e adapta-se de forma quase infinita.

A versão base: a criança tapa os olhos (ou vira-se), o adulto esconde o objeto, a criança procura. Simples, mas há um mundo de regulação de dificuldade entre uma criança de dois anos e uma de cinco.

Formas de tornar mais fácil:

Formas de tornar mais difícil:

E depois há a inversão que faz metade da graça: trocar de papéis. A criança esconde e o adulto procura. Esconder exige antecipar o que o outro vai ver — é teoria da mente em ação, e é bem mais difícil do que procurar. Nos primeiros tempos, a criança vai esconder o objeto à vista e ficar a apontar para o esconderijo. É normal, faz parte, e não se corrige: passa sozinho.

Regra de ouro: o jogo deve estar quase no limite, nunca acima dele. Uma criança que acerta sempre aborrece-se; uma que falha sempre desiste. O ponto certo é aquele em que ela consegue com esforço. Se falhar duas vezes seguidas, retire dificuldade sem anunciar — tire um par, dê uma pista, aproxime o esconderijo.

Jogos de memória sem comprar nada

Não é preciso um jogo de cartas de memória. Tudo o que faz falta são pares de objetos iguais, e há muitos em casa:

A versão com fotografias de família costuma superar todas as outras aos três e quatro anos. A criança reconhece, nomeia, comenta — e o jogo transforma-se em conversa. Menos memória pura, mais linguagem e vínculo, o que raramente é mau negócio.

O que evitar

Alguns erros comuns tiram a estes jogos quase todo o valor:

Memória auditiva: a metade esquecida

Quase todos os jogos de memória são visuais, e no entanto grande parte do que uma criança tem de reter na escola chega pelos ouvidos: instruções, sequências, histórias. Vale a pena treinar este canal explicitamente.

Cinco minutos, muitas vezes

Não é preciso reservar tempo para isto. O esconde-esconde de objeto cabe nos dez minutos antes do banho; o “que mudou?” faz-se com o que está na mesa depois do jantar; o dia de uma cor não ocupa tempo nenhum.

O que faz diferença é a regularidade e o ajuste do desafio, não a duração. Sessões curtas, frequentes e sempre um pouco acima do que a criança já domina fazem mais pela atenção e pela memória do que qualquer material comprado para o efeito. E têm um efeito lateral que nenhum jogo comprado tem: são minutos de atenção partilhada, que é o ingrediente que sustenta tudo o resto no brincar.

Perguntas frequentes

A partir de que idade uma criança consegue jogar jogos de memória?

Por volta dos dois anos já procura um objeto que viu esconder, o que é a base de todos estes jogos. Jogos de pares virados para baixo funcionam a partir dos três anos com três ou quatro pares, e crescem em número até aos seis. Antes dos dois anos, a versão que funciona é esconder parcialmente um objeto e deixar uma parte à vista.

Quantos pares devo usar num jogo de memória?

Comece com três a quatro pares aos três anos, cinco a seis aos quatro, e oito a dez aos cinco ou seis. Se a criança falhar de forma sistemática, retire pares em vez de insistir. Um jogo demasiado difícil não treina memória, treina frustração — e o objetivo é que ela queira jogar outra vez.

Estes jogos ajudam mesmo na concentração?

Ajudam, porque exigem manter informação ativa na mente enquanto se faz outra coisa, que é a definição de memória de trabalho. É uma das funções executivas mais associadas à aprendizagem escolar. O efeito depende da regularidade e do nível de desafio: sessões curtas e frequentes, com dificuldade ajustada, valem mais do que sessões longas ocasionais.

O meu filho não quer perder. Como faço?

Jogue em versão cooperativa: em vez de contarem pontos individuais, contem quantos pares o grupo descobriu e tentem bater o registo da vez anterior. Entre os três e os cinco anos, a competição direta gera mais desistência do que motivação. A componente competitiva pode entrar mais tarde, quando a tolerância à frustração já estiver mais construída.

Quanto tempo deve durar um jogo destes?

Cinco a dez minutos aos três anos, dez a quinze aos cinco. A atenção sustentada de uma criança pequena é curta e forçar mais tempo produz o efeito contrário. É melhor parar enquanto ela ainda quer continuar — assim, da próxima vez, é ela a pedir.

Fontes: